Pelo poder de não expressão

10 set

18554267676_bbcb006403_b

Terça de manhã fiz meu ritual: acordei, coloquei música, arrumei o quarto, me troquei e fui tomar café com palavras cruzadas como adoçante. Meu pai veio me perguntar se eu tinha visto a foto que ele mandou no dia anterior e comentei que vi sim, estava linda, mamãe feliz toda trabalhada na pose né.
Peguei minhas coisas e fui pro trabalho. cheguei antes, como de costume, para aproveitar uns minutos de paz e organizar a agenda. Liguei o computador, abri e-mail e o skype. Recebi uma mensagem gigante de uma colega do trabalho, dizendo que estava chateada comigo pois  recusei dar carona pra ela. Céu, como isso? Eu saí mais cedo ontem, não tinha visto a mensagem dela, me perdoa.
Na hora do almoço, liguei o wifi para ver as notificações. Sim, estamos em 2015 e eu desligo o wifi durante o trabalho para não me distrair dos afazeres. Eu poderia colocar o celular no silencioso, mas ele pisca. Eu posso guardá-lo na gaveta, mas eu sei que ele pode piscar… De qualquer forma, liguei e recebi uma mensagem do meu irmão perguntando se eu tinha visto a mensagem que ele mandou de manhã. Sim, eu vi, só não respondi ainda, mas está tudo bem, depois eu deposito, obrigada.
Depois do trabalho fui direto para o treino e minha amiga perguntou se eu vi a mensagem que ela deixou perguntando o número do pedreiro. Puts, esqueci de pegar! Mas vi a mensagem, hoje a noite te mando. Cheguei em casa cansada pós treino, tomei banho, fui jantar. Aproveitei para ver novamente as notificações do celular e então fui responder a mensagem que recebi na sexta-feira: “Bruna, desculpa! Saí sem o 3G ligado, mas você devia ter ido ao teatro, foi lindo!”/”Nina, me perdoa, mas não pude ir no palquinho quinta… Trabalho sexta de manhã, fica foda. Mal não responder antes.”/”Le, eu vi sua mensagem. Eu te ajudo, eu te amo. Me manda todas essas ideias por e-mail? Esses áudios me deixam louca”/”Mi, como está London, baby?”/”Amora, eu não pude ir tomar café no domingo, estava em Patrimônio. Podemos marcar nesse fim de semana?”/”Jão, teve GIG sábado, véi! Avisa antes”. E a lista continua.
As desculpas já fazem parte da rotina. Mas vejam bem, não faço por mal… e não gosto que seja assim. Eu respondo quando posso, quando quero, quando tenho tempo livre pra responder as banalidades. Do contrário, faço outras coisas. Gosto de parar e ficar relembrando o jeito que ele segurou minha mão, de tomar chá e ler com os pés enfiados debaixo da almofada, de escutar o som da chuva e imaginar uma história mirabolante de como as formigas estão desviando dos asteroides formados pelas gotas. Eu fico tanto tempo plugada na internet, nas cobranças, nos afazeres… Que no meu tempo livre, não quero isso. Quero só… viver.
Então, da minha parte, peço apenas que não me espere. Por favor, não espere os riscos azuis. Não estou negando o role, a ideia, o combinado. Quando tenho que responder, o farei. Se combinarmos algo, estarei lá. Se não aparecer, pode ter certeza que não marquei na agenda ou achei mais legal ver um filme, confesso. Mas de vez em quando… deixe estar. É só meu jeitinho. Não brigue comigo, não me cobre… Me entenda. Passamos tanto tempo tendo que fazer coisas, ver pessoas, montar projetos, ler artigos, ver filmes, participar de discussões… Para. Respira. Escuta. Respira. Olha. Oi. Vem cá… aquela nuvem não parece um lagarto?

Instagram

10 ago

IMG_0469 edited

No mundo moderno da correria constante, fui pega na cilada da ação justificada pelo exibicionismo. Só que não tive escolha, me peguei não produzindo fotos. Vocês não sabem como é estranho simplesmente não tirar a câmera do armário, ou fazê-lo apenas para fotos chatas de produtos no trabalho. Então sucumbi ao Instagram.

Não estou falando mal, pelo contrário! É que sou dessas pessoas quadradas que tentam ser redondas e acabam virando hexágonos (eu até consigo rodar a roda da vida, mas vou por etapas – basta imaginar uma roda em forma de hexágono). Instalei e viciei no Instagram no mesmo dia, fiz até aquele mimimi digno de app novo (abrir de tempo em tempo, mapear todos que tem, fuçar na vida da galera…).

Foi então que quis juntar uma coisa na outra: fazer fotos e agitar o Instagram. Daí surgiu mais um projeto “365 days”. Agora com as lentes do celular entrando na jogada. Vou te falar… Tem sido divertido.

page

Me segue lá: @_aninhapalombo.

Quem sabe assim não nos vemos com mais frequência? ;)

Até,

A.

Não quero calar a entrelinha

9 abr

(5 on 5)

– Com licença – disse ela batendo suavemente no batente da porta já aberta da sala de aula. Todos, inclusive o Sr. Professor, olharam para a nova monitora, carne nova no pedaço – Aqui estão as cópias que pediu.

Aaaah! Olhem gente, que belo exemplo do sexo feminino. Além de linda, eficiente.

Percebem? O julgamento está nas entrelinhas. Não tinha como ela deixar essa passar, não era da sua natureza.

– Se gosta do que faço, por que não me elogia pelo meu trabalho ao invés da minha beleza? Engraçado… Estes são textos sobre a discussão de igualdade de gênero, não acha que o que você disse é um exemplo claro de um comportamento meio… errado? – Ela falou sorrindo, mas a ironia exalava dos seus poros. Os alunos se empertigaram um tiquinho.

– Ahh mas você sabe que estou brincando com você. Não vem com essa, só porque ela fez Ciências Sociais quer discutir tudo a todo momento. Toda mimimi de defender pobre, negro, índio e o caralho a quatro.

… Exato. Continua. Me chama de socialista, de hippie, de feminista. Fala que eu defendo os índios, os “pretos”, os pobres, os gays, os bandidos e filhotes abandonados na rua. Fala que eu tenho direito de ter, de ser, de falar, de andar, de comprar, de votar e usar que roupa eu bem entender. Fala pra eles que eu posso ter a profissão que eu quiser, agir do modo que tiver vontade e responder a comentários abusivos no mesmo nível. Cante essa canção de igualdade e de liberdade que quando chegar no último refrão, prometo que aplaudo de pé. 

Xiiii… Agora virou a nervosinha!

Agora sou a nervosa que se defende de comentários babacas. – O sorriso ainda era meigamente irônico, como ela conseguia? – O que aconteceu com a eficiente e a bonita? Sabe, querido Professor, você devia ensiná-los a não ter várias personalidades e defender seus ideais… Afinal, como já dizia Lenine, nós podemos ser Todas elas Juntas Num Só Ser – O rastro do seu sorriso triunfante só foi apagado pelo baque suave da porta se fechando atrás dela. Céus, que menina inspiradora.

A.