Pelo poder de não expressão

10 set

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Terça de manhã fiz meu ritual: acordei, coloquei música, arrumei o quarto, me troquei e fui tomar café com palavras cruzadas como adoçante. Meu pai veio me perguntar se eu tinha visto a foto que ele mandou no dia anterior e comentei que vi sim, estava linda, mamãe feliz toda trabalhada na pose né.
Peguei minhas coisas e fui pro trabalho. cheguei antes, como de costume, para aproveitar uns minutos de paz e organizar a agenda. Liguei o computador, abri e-mail e o skype. Recebi uma mensagem gigante de uma colega do trabalho, dizendo que estava chateada comigo pois  recusei dar carona pra ela. Céu, como isso? Eu saí mais cedo ontem, não tinha visto a mensagem dela, me perdoa.
Na hora do almoço, liguei o wifi para ver as notificações. Sim, estamos em 2015 e eu desligo o wifi durante o trabalho para não me distrair dos afazeres. Eu poderia colocar o celular no silencioso, mas ele pisca. Eu posso guardá-lo na gaveta, mas eu sei que ele pode piscar… De qualquer forma, liguei e recebi uma mensagem do meu irmão perguntando se eu tinha visto a mensagem que ele mandou de manhã. Sim, eu vi, só não respondi ainda, mas está tudo bem, depois eu deposito, obrigada.
Depois do trabalho fui direto para o treino e minha amiga perguntou se eu vi a mensagem que ela deixou perguntando o número do pedreiro. Puts, esqueci de pegar! Mas vi a mensagem, hoje a noite te mando. Cheguei em casa cansada pós treino, tomei banho, fui jantar. Aproveitei para ver novamente as notificações do celular e então fui responder a mensagem que recebi na sexta-feira: “Bruna, desculpa! Saí sem o 3G ligado, mas você devia ter ido ao teatro, foi lindo!”/”Nina, me perdoa, mas não pude ir no palquinho quinta… Trabalho sexta de manhã, fica foda. Mal não responder antes.”/”Le, eu vi sua mensagem. Eu te ajudo, eu te amo. Me manda todas essas ideias por e-mail? Esses áudios me deixam louca”/”Mi, como está London, baby?”/”Amora, eu não pude ir tomar café no domingo, estava em Patrimônio. Podemos marcar nesse fim de semana?”/”Jão, teve GIG sábado, véi! Avisa antes”. E a lista continua.
As desculpas já fazem parte da rotina. Mas vejam bem, não faço por mal… e não gosto que seja assim. Eu respondo quando posso, quando quero, quando tenho tempo livre pra responder as banalidades. Do contrário, faço outras coisas. Gosto de parar e ficar relembrando o jeito que ele segurou minha mão, de tomar chá e ler com os pés enfiados debaixo da almofada, de escutar o som da chuva e imaginar uma história mirabolante de como as formigas estão desviando dos asteroides formados pelas gotas. Eu fico tanto tempo plugada na internet, nas cobranças, nos afazeres… Que no meu tempo livre, não quero isso. Quero só… viver.
Então, da minha parte, peço apenas que não me espere. Por favor, não espere os riscos azuis. Não estou negando o role, a ideia, o combinado. Quando tenho que responder, o farei. Se combinarmos algo, estarei lá. Se não aparecer, pode ter certeza que não marquei na agenda ou achei mais legal ver um filme, confesso. Mas de vez em quando… deixe estar. É só meu jeitinho. Não brigue comigo, não me cobre… Me entenda. Passamos tanto tempo tendo que fazer coisas, ver pessoas, montar projetos, ler artigos, ver filmes, participar de discussões… Para. Respira. Escuta. Respira. Olha. Oi. Vem cá… aquela nuvem não parece um lagarto?

2 Respostas to “Pelo poder de não expressão”

  1. Letícia 10 de setembro de 2015 às 11:29 am #

    Me identifiquei tanto com esse texto, as pessoas sempre ficam malucas quando eu sumo, mas na verdade tem horas que eu realmente não vejo as mensagens que chegam no meu celular porque eu não fico andando com ele p/ cima e p/ baixo e também não fico conferindo de hora em hora o que me mandam, outras vezes fico com preguiça, enfim… Mas sei bem como é isso, tem horas que a vontade é de fazer outras coisas, ler um livro, escrever algum texto, ficar deitada olhando para o nada, andar por aí… Não consigo me acostumar com essa ideia de ter que ficar conversando o tempo todo, ou ficar mandado mensagens banais, ainda não me acostumei a ter que ficar dando satisfação o tempo todo do que estou fazendo. O que não entendo é quem não se cansa disso. ^^

    • anapalombo 10 de setembro de 2015 às 11:49 am #

      Letícia, me dá a mão! Vamos correr juntar por aí assoviando Budapeste ou qualquer outra música que você se sinta bem numa tarde de setembro.
      Mas obrigada, estamos juntas na luta contra as amarras do mundo moderno. ♥

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