Extras (S. Westerfeld)

23 dez

[348-365D] Extras

Lembram quando fiz resenha para a série Feios e não incluí Extras? Então, vim acertas as contas.

Extras é um livro que partilha do mesmo contexto teórico do resto dos livros da série Feios, eles também construíram nova sociedade, novas regras e perfis de cidadão. Mas aqui o padrão não é a beleza, é a corrida pela popularidade. A Era da Perfeição fora deixada pra trás, a Libertação mudara tudo – menos os rostos perfeitos. Porém, abrir os cadeados da mente trouxe consequências diferentes das esperadas. Antes, as pessoas podiam pedir qualquer coisa que desejassem, só que o fato de não serem mais avoados mudou também a economia dos países, aparentemente pessoas criativas e dotadas de livre escolha eram mais gananciosas que os avoados. A saída então encontrada pelo governo foi estabelecer uma economia baseada na reputação. Dali em diante, méritos e fama diriam quem ficaria com as melhores mansões, as melhores taxas de emissão de carbono ou as melhores áreas de construção. Méritos eram dados à médicos, professores, guardas e até crianças que fizessem as lições de casa e tarefas domésticas. Era assim que o governo controlava e parabenizava os que mantinham a cidade funcionando de acordo com o determinado pelo Comitê da Boa Cidadania. As pessoas podiam usar seus recursos como bem quisessem e, para manter o sistema de reputação justo, cada cidadão acima da idade infantil ganhava seu próprio canal.

Nesse mundo governado pela fama, Aya Fuse ocupava o 451.611º lugar no ranking, uma posição insignificante  e bem longe da do seu irmão, Hiro, que estava junto com as poucas celebridades que dominam o topo da lista. Ele é também um “divulgador”, mais um canal interligado à interface pública da cidade. E sabe o melhor? Nesse sistema, não é necessário fazer alguma coisa relevante para ter sucesso, basta encontrar alguém que o tenha feito e contar para todos, um furo dado em primeira mão. E Aya descobriu muito mais do que devia.

Esse livro me veio como uma paródia às nossas atitudes reais-virtuais. À nossa exposição constante e reveladora nas redes sociais. À nossa inexplicável vontade de mostrar à quem quiser ver meu lindo prato de comida do almoço. Desculpe, falo “nós”. Incluo você que faz isso de vez em quando, eu que faço isso para o whatsapp ou aquele outro que nem sequer tem facebook. Falo “nós” porque julgo, meço ações e dito certo e errado. Falo “nós” e afirmo coisas que sequer deveriam ser ditas. Falo “nós” porque não sei lidar com essa parte que expõe e quer ser discreta, que mostra a informação e logo se pergunta onde o outro conseguiu. Sou dessas que vivem em cima do muro, assisto os dois lados, participo das brincadeiras quando quero… Mas me recuso a participar de qualquer um dos grupos.

Lendo esse livro, sempre quis relembrar um parágrafo da minha monografia eentão pesquei-o para analisar melhor porque não saía da minha cabeça:

“Suponhamos um contexto de alto potencial fotográfico, se formos registrá-lo com a câmera analógica teríamos que limitar-nos a escolher apenas 36 poses; já com a câmera digital o limite é, no mínimo, dez vezes maior. Se uma foto deu errado não haveria conserto, porém, hoje podemos vê-la instantaneamente e corrigir o erro quantas vezes quisermos. Esse fator não pode passar despercebido na teoria da fotografia, pois a produção de imagens é tão grande que o registro de um momento único (princípio fundador da fotografia) fora banalizado. Encontramos nos últimos 5 anos a culminância de um braço formado e bem sustentado da fotografia que  não faz registros por curiosidade, lembrança ou beleza da cena, as fotografias são tiradas para serem exibidas nas redes sociais da internet. Isso explica um sujeito tirar foto diante do espelho ou fotos tiradas de si mesmo apenas para mostrar onde estão ou o que fazem. Perdeu-se diante da facilidade de fotografar com câmeras digitais o gosto de registrar uma cena para ser guardada a posteridade.” (PALOMBO, 2013).

É isso. Uma matéria para Aya representaria a ascensão no ranking, mas até que ponto sua aventura iria deixar marcas que seriam lembradas no futuro?

Com carinho,

A.

Uma resposta to “Extras (S. Westerfeld)”

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  1. Livros lidos em 2013 | Um journal de sorrisos - 11 de janeiro de 2014

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