Eu tenho um livro favorito?

8 nov

[282-365D] Stop n' go

Eu não tenho um livro favorito.

Meu Skoob diz que meus livros favoritos são “Anna e o beijo francês” e “A culpa é das estrelas”, mas não consigo pensar senão em uma perspectiva referencial: eu tenho como favoritos esses livro hoje… E amanhã? E ontem? E quando era pequena? E quando for velhinha?!

Isso me incomoda. Ter um livro favorito para sempre me incomoda. Me incomoda pensar que não evoluí, não criei outros gostos, conheci novos sabores, novas leituras, novas preferências. Vejam bem, eu gostava de Harry Potter na minha adolescência, gosto de HP hoje e acho que pra minha vida inteira gostarei dessa série mágica. Por uns bons anos, esse foi meu livro favorito – mais que isso até, ele se concretizou de tal forma na minha vida que até hoje me despeço de minha amiga usando o codinome Black (nosso personagem favorito). Hoje, não mais. HP era meu livro favorito naquela época, porém, hoje em dia ele não mais me define da mesma forma. Eu mudei.

Claro que não deixei de gostar de HP e ele sempre representará com muito carinho àquela época da minha vida, na qual eu gostava de jogar RPG em uma Hogwarts inventada, de fazer deveres de casa em que tinha que pesquisar métodos de tratar animais no “Animais Fantásticos & Onde Habitam” e de concluir posts de conversas intermináveis ao lado do lago. Esse meu passado ainda faz parte de mim e HP sempre será um livro especial… Mas meu favorito? Não mais. Hoje tenho outros livros favoritos, que já se tornaram ou um dia podem se tornar também livros especiais.

Ok, talvez toda essa problemática fosse mais fácil se mudássemos a nomenclatura. Só que, ainda assim, teríamos um problema, pois “especiais” não significa “favorito”. Raciocinem comigo e me provem que eu não sou louca (ou não):

Siginifcado de “favorito”: adj. O que mais agrada. S.m. Pessoa que goza da preferência, simpatia ou predileção de alguém; valido. 
Significado de “especial”: adj. Peculiar a uma pessoa ou coisa; privativo, singular, exclusivo. Fora do comum, excelente, notável.
[Fonte: www.dicio.com.br]

São coisas diferentes. Não posso responder, hoje, que meu livro favorito seja HP da mesma forma que não posso responder que minha cor favorita seja preto, porque não é. Preto era minha cor favorita quando tinha 13 anos e me deliciava com Linkin Park no volume máximo. Descubro-me hoje tendo como cor favorita o vermelho, por razões óbvias de escolher tal cor para a parede do meu quarto.

Tive um exemplo fatídico dessa minha paranoia esses dias: não mais classifiquei “O Apanhador no campo de centeio” como livro favorito. Eu reli o livro e finalmente percebi que ele já deixou de ser favorito a um bom tempo. Ele é especial por n motivos e hoje entendo o Holden como antes não entendia, só que a história já deixou de me representar. Ela representa lembranças, perfumes e decisões. Mas nada de Ana, com 22 anos, socióloga e monitora educacional. Nope. O Skoob deveria ter uma etiqueta para os especiais… Ou eu tenho que parar de frescura?

E onde “Anna e o beijo francês” ou “A culpa é das estrelas” entram nessa história? Eles representam uma parte do que sou hoje? Acredito que sim. Perkins e Green me conquistaram como poucos e nos últimos tempos fizeram uma diferença gritante, daquelas que só os livros favoritos tem jeito de fazer, sabe? Algo como aquela sineta que toca e marca a expansão do horizonte da sua mente; aquele baque da queda em um novo mundo e suas novas cores, cheiros, amores, tremores e dores; aquele frio na barriga que te faz virar as páginas com passos acelerados de quem corre atrás do último trem da noite; aquele sorriso infantil que brota ao ler pela terceira vez a mesma cena.

Ok, menti. Eu tenho um livro favorito. E, hoje, eles são esses aí. Mas, amanhã posso mudar de ideia e, se o fizer, já sabem, significa que talvez eu tenha mudado um pouquinho.

Com carinho,

A.

9 Respostas to “Eu tenho um livro favorito?”

  1. thami 8 de novembro de 2013 às 5:09 pm #

    Ana, gostei do post e entendo o conflito que a pergunta gera. Como você havia postado um pouco sobre ti, quis conhecer a sua história com os livros. E gostei da história, dessa que você conta no post. Todos nós temos por “favorito” uma concepção particular. E escolher entre livros sempre parece uma exclusão, sempre dá a impressão de que estamos esquecendo de mencionar o mérito literário de tantos autores… Por isso, quando me perguntaram isso em uma entrevista de emprego, eu adotei outra perspectiva para tratar o meu livro “favorito”: a perspectiva afetiva. Escolhi um livro, pois tenho uma história pessoal, uma “relação” de afeto com ele. O meu livro favorito nunca foi determinante ou “favorito” pelo conteúdo. Pela leitura. Pela narrativa. Ou pelo personagem…

    Eis a história do meu livro, que é “favorito” por motivos específicos – meu pai me deu quando eu tinha 13 anos. Nós fomos em uma livraria mega store e eu fiquei hipnotisada pelo livro, que prometia ser “O mundo de Sofia: romance da história da filosofia”. Era azul, grande, mais de 500 páginas, lindo, (traduzido por um dos meus atuais professores de alemão na USP, mas isso obviamente não era relevante na época). Pois bem, namorei o livro por quase uma hora, pedi insistentemente para que meu pai o comprasse e tive que lutar contra a incredulidade dele: uma menina de 13 anos lendo um livro de mais de 500 páginas sobre “história da filosofia” escrito por um nórdico qualquer?

    Depois de muita insistência meu pai comprou o livro, que na época custava uns 50 reais, e me deu de presente com o desafio: Duvido que você vai ler isso! Não só li, como reli. Não penso ser o livro mais fantástico do mundo, mas foi a minha conquista particular, o meu desafio mais difícil como leitora – de fato, a narrativa não era coisa fácil para uma menina… Mas foi assim que eu, estudante de Letras, portadora de uma estante infindável de livros, respondi a essa pergunta em um questionário de entrevista de emprego. Deu certo: fui chamada.

    Dentre outras coisas, eu encontrei o único aspecto em um livro que me permite que ele nunca deixe de ser especial, inesquecível e para sempre favorito: foi o meu encontro com a literatura, minha conquista, o presente/desafio que meu pai me deu. Ele nunca mais duvidou das minhas escolhas literárias. O livro é especial, como a definição que você mencionou. Não me representa, porque os favoritos não precisam nos representar (imagina se Franz Kafka, autor que pesquiso na universidade e um dos meus favoritos, me representasse como pessoa?) mas eu observo essa escolha pela perspectiva do que esse livro representou/significou na minha vida: foi o turning point do que eu viria a ser hoje, 8 anos depois!

    Essa é minha história, meu comentário-bíblia para o seu post e o motivo da minha pergunta. Todos nós temos algo que faz com que um livro seja mágico para nós. Gosto da mágica que você parece enxergar nos livros. A mágica que enxerguei no meu livro favorito é essa que te escrevo: a do encontro adolescente com a literatura.

    • anapalombo 11 de novembro de 2013 às 8:48 pm #

      Thami, não tenho palavras, então vou contar como foi que li seu comentário: Estava com minha mãe e minha prima na rodoviária, esperando meu ônibus pra SP, eis que recebo no e-mail que você tinha respondido aqui. Pelo tamanho do texto, não aguentei de curiosidade e li em voz alta para nós três. Fui fraca, embarguei a voz e segurei um choro, sorrisos e uma vontade de te abraçar.
      Quis mudar tudo o que tinha escrito, quis ter um livro favorito como o seu! Quis ter uma história tão especial quanto à sua. E só depois que falei em voz-alta-de-pensamento a palavra “especial” é que refiz meu caminho teórico e me convenci novamente da minha teoria “não tenho um livro favorito”. Uau. Você deu um nó na minha cabeça e conseguiu atingir lá no fundo e me emocionar.
      E não somente eu. Adivinha que livro minha mãe pegou da estante no dia seguinte e a surpreendi lendo nessa segunda? Sim, O Mundo de Sofia (aliás, acho que temos a mesma edição). :)
      Obrigada, obrigada, obrigada. ♥
      Gosto da mágica que enxergo nos livros. Gosto da mágica que você encontrou e que te fez o que é. Gosto da mágica que podemos incentivar os outros a procurar. E gosto de poder compartilhá-la com pessoas como você.
      Merci, une autre fois, ♥.

      • thami 5 de dezembro de 2013 às 10:21 pm #

        Ana ♥ Voltei dos cafundós de onde me enfurnei a fim de terminar o semestre de Letras. Já tinha lido seu comentário, como te falei, mas acho que ele exige muito mais do que uma resposta apressada (como todos os seus posts exigem e merecem muito mais do que leituras e comentários apressados). Fico feliz de ter despertado a curiosidade de sua mãe quanto ao livro e agora quem está curiosa sou eu, para saber o que ela achou! Espero que tenha gostado. Meu pai nunca esquece dessa história também… Esses dias estávamos jantando e ele lembrou do livro! Imediatamente lembrei do que havia te contado sobre como livros especiais marcam… não necessariamente só uma pessoa :) Você já viu o filme que lançou no Brasil, “Trem noturno para Lisboa”? Fala sobre muitas coisas, dentre elas, livros que apaixonam… É um bom filme, não-hollywoodiano. Eu saí muito emocionada da sala de cinema! Obrigada por ler minha história e por me permitir contá-la. Por dar a ela alguma importância, nesse mar de histórias de que é feito o mundo. Acho que uma coisa só é especial porque nós e os outros fazemos dela algo especial. Você dar valor à minha história, assim como meu pai lembrar-se dela, faz desse livro e dessa vivência algo ainda mais importante e maior ♥ Obrigada de novo pela atenção e paciência e que essa troca de posts e pensamentos ainda sirva para dar muitos nós (positivos!) em nossas cabeças e para compartilharmos um pouquinho do que somos e do que temos em comum! ^_^

        “I have always imagined that Paradise will be a kind of library.” ― Jorge Luis Borges

  2. Aninhahh 11 de novembro de 2013 às 4:38 pm #

    Ana,
    Adorei o texto e faz sim todo todo sentido. A gente muda e as coisas mudam com a gente, simples assim. Já tive diversos livros “favoritos”, cadastro como favoritos no Skoob, mas por vezes penso: eles são queridos, mas sei lá. É estranho. Vc colocou nesse texto tudo que sinto, e tenho certeza que muita gente sente também, tu num é a única *-* Sinta-se abraçada…

    Ah !!! Juraaaaaaa que tu tbm ama o Sirius? ♥ Te amo ainda mais hauhuahuahuaha
    Sério, nunca conheci ngm que tbm ama o Black…

    Beijos !
    http://www.odocediariodasanas.wordpress.com

    • anapalombo 11 de novembro de 2013 às 8:49 pm #

      Que feliz ler isso! *-*
      Me senti calorosamente acolhida, haha.
      E viva os Black! o//

      • Aninhahh 12 de novembro de 2013 às 4:19 pm #

        Vivaaaaa…o Siruis é amor demais…

  3. Regina 14 de novembro de 2013 às 10:32 am #

    Querida Ana,

    Meu critério de preferido também é esse. Acredito que boas histórias você vivencia, e como não é possível você viver a mesma coisa, da mesma maneira, para o resto da sua vida, meus queridos livros também me acompanham nessa longa jornada de metamorfose. Pois os livros que mais me marcaram não fui eu que os li, mas magicamente eles me leram. Uma delas aconteceu com Grandes Esperanças de Charles Dickens. Minha relação de amor será eterna e morrerei amiga de Pip. Aquele livro tem tanto de mim, tanto da minha história, e nem preciso dizer o quanto me ajudou a superar e a me entender como nenhum psicólogo já teve o mérito (olhinhos já ficam lacrimejados e sinto aperto no peito só de lembrar). Hoje posso dizer que compreendo muito mais minhas escolhas e aceito melhor meus erros, pois a literatura tem o poder de nos tornar mais humanos com os outros e sobretudo, mais humanos com nós mesmos. Quando me perguntam o porquê eu gosto tanto de ler ou o quê eu procuro lendo tanto, eu respondo sem pestanejar (ora bolas!): autodescobrimento. Uma vez li que o significado de autodescobrimento é revelar à consciência os conteúdos que encontram inconscientes. E justamente, os livros que mais me marcaram foram os que me mostraram algo que nem eu sabia que estava buscando e me proporcionaram experiências/mudanças que não sabia que precisava. Eu nunca gostei muito do termo “favorito” e muito obrigada Ana por me apresentar “especial”. Especial fala mais ao meu coração. Ps: Obrigada por seu blog Ana, ele é especial. Adoro trocar caracteres com você.

    • anapalombo 16 de novembro de 2013 às 1:33 pm #

      Eu não tenho o que responder pra você, Rê…
      Eu também gostei de pensar em livros especiais, assim como pessoas especiais… não favoritas, especiais. Parece que há uma relação diferente, em uma das palavras está implícita um tempo contínuo, uma permanência. Gosto dessa relação – muito porque sou nostálgica e saudosista – e gostei de conseguir traduzi-la ao nosso querido universo literário também. :)

      P.s.: Que façamos essa relação especial assumir também sua característica de permanência: não suma daqui, que não sairei daí. :)

      • Regina 19 de novembro de 2013 às 5:34 pm #

        A permanência do estado emocional de sempre gostar. Sempre ser especial.

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