Inutilidade

20 out

ana

Não sei com quantos anos os fatos começaram a se transformar, só sei que chega uma fase da vida em que ser inútil já não significa a mesma coisa que antes. O que te torna inútil não é mais uma simples tarefa que você não fez, nem o quarto bagunçado ou não ajudar sua avó a colocar a mesa, o que te torna inútil passa a ser coisas aparentemente ainda mais banais como dormir a tarde em um dia de semana, não varrer a casa (aparentemente limpa) antes da visita chegar, ou ainda não ajudar sua mãe a colocar a mesa do almoço de domingo.

Só que não são apenas os fatos, o peso da inutilidade também aumenta. Já não é fácil esquecer sua qualificação (“ser inútil”) com uma bronca sem fundamento que demos tanta atenção quanto ao Faustão. Hoje, parece que as pessoas sussurram sua qualidade de inútil ao olharem pra baixo quando tentam te encarar ou ao perguntarem sobre seu dia com um tom de voz que assemelha piedade. A comparação entre você e a pessoa com quem fala é eminente e inevitável. Você sabe que a pessoa que age dessa forma pensa que é mais esforçada, melhor, mais útil. Posso estar exagerando, a pessoa pode ser um bom amigo, etc., mas não consigo me controlar! Uma hora ou outra, no meio da conversa, o peso da inutilidade vai bater como um choque de realidade, aquela situação ridícula em que nos pegamos: como quando uma pessoa que já terminou a faculdade se pega entusiasmada com festas do colegial. Aquela sensação comumente estranha de não-pertencimento.

O que me fez finalmente perceber a inutilidade no plano teórico do pensamento foi perceber que muitas vezes essa sensação parte de mim. Não porque ajo como uma inútil o tempo todo, mas porque eu tento arduamente não ser uma, entende? E quando acordo depois de um cochilo merecido às três e meia da tarde, me sinto culpada. E a culpa não tem o efeito de me despertar e me colocar a fazer algo produtivo, não, ela simplesmente fica ali, incomodando, me corroendo e me fazendo sentir uma power ranger verde que não foi chamada pra missão por ter torcido o pé na cozinha. E pior, não é um sentimento de algumas horas e que se resolve com uma boa limpeza da alma ao som de Millencolin, Offspring ou Yellowcard. Ela é resistente, essa tal de culpa… ela persiste.

Presumo que sua existência deva ter começado um pouco depois das minhas férias pós-formatura da faculdade, pois desde então há A Cobrança. Cobro-me para ser algo, alguém, alguma coisa. Cobro minha sanidade, aparência, disposição e utilidade. Cobro com a rigorosidade e o senso de justiça da madrasta da Cinderela – o que, convenhamos, não é nem um pouco legal e fere a maioria dos princípios que preso no outro e que gostaria de manter para entrar com o pé direito em uma nova fase da vida, afinal, temos que salientar, a tal madrasta era má.

Então descubro que os preparativos para a nova fase estão errados. Inutilidade, culpa, maldade… Nada disso deveria fazer parte de um plano perfeito de começo de vida. Mas me analiso a fundo, e eis os cinco motivos mais relevantes que indicam que meus preparativos estão errados: 1) não está sendo divertido ou libertador – e os filmes hollywoodianos me ensinaram que essa é uma boa hora para isso; 2) trabalho em um emprego temporário, que me chateia um bocado – mas essa talvez seja a hora pra isso, segundo os mesmos filmes hollywoodianos; 3) nunca cobrei tanto de mim sem objetivo final e consequentemente apresentando tão pouca produtividade; 4) não tenho tempo pra nada e ainda assim parece que não faço merda nenhuma; 5) eu ando dormindo por volta das 22h da noite – o que é humilhante, desnecessário e revela um lado depressivo de mim mesma, considerando meu histórico e, claro, minha (san)idade.

Sinceramente? Acho que estou me tornando alguma coisa que parece muito com as algumas coisas que sempre detestei (como solteironas carrancudas, jovens chateados e mal humorados o tempo todo ou pessoas que cospem quando falam). Como fui parar tão longe de mim? Ok, eu entendo que às vezes é preciso se abaixar para pegar impulso, mas não sabia que já estava deitada e inerte no chão há tanto tempo.

“You held me down, but I got up / Already brushing off the dust”

É, Katy, em meio a tantas preferências musicais, foi você quem me mostrou, nessa final de playlist, que está na hora de me ver ROAR.

A.

4 Respostas to “Inutilidade”

  1. P. 21 de outubro de 2013 às 8:55 pm #

    Me perdi. Mas não tente tanto, as vezes o tentar é que faz mal. Apenas seja.

    • anapalombo 21 de outubro de 2013 às 8:56 pm #

      Serei.

  2. regina 29 de outubro de 2013 às 11:37 pm #

    Ana,
    suas palavras encaixam no meu momento atual. Essas preocupacões geralmente vêm no final de algum ciclo, faculdade, final de ano, aniversários (no meu caso). Estou ha alguns dias do meu e todo ano (todo santo ano), passo por isso. E como bem disse você, partem da gente. Ninguém na face da terra sabe impor cobranças tão pesadas como nossa consciência. E quando não estou bem (com ela, no caso) a culpa vem como efeito colateral. É exatamente do jeito que você disse, ela fica ali incomodando. E como! O que eu acho mais difícil é justamente saber até que ponto ela me ajuda a fazer algo produtivo ou me atrapalha.
    Isso me deixa extremamente afoita. E o pior de tudo é que repreendendo-me severamente tanto pelas transgressões do que eu não fiz , quanto pelas do que eu não sei o que fazer. Complicado! rsrs
    Vou concordar o comentário acima e adquirir mais a dita leveza e como diz minha tia, nesses momentos
    “fica em silêncio, se escuta que tá tudo aí dentro!​”. Porque ninguém sabe cuidar melhor de mim do que eu mesma.

    bjs e obrigada pelas palavras. Suas linhas me fizeram refletir (de novo!).

    • anapalombo 30 de outubro de 2013 às 6:13 pm #

      Rê, mais uma vez, obrigada você.
      Seus comentários frequentes aqui me ajudam de diversas formas a continuar meus caminhos e de novo você veio me dizer que não estava sozinha.
      Nos escutemos (no duplo sentido: sozinha e reciprocamente). :*

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