Lolita (V. Nabokov)

11 jul

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Acabei de fechar Lolita. Confesso que vim preparada para comentar sobre um livro asqueroso, estranho, incomum. Mas, assim como foi com Crônicas de Nárnia, mudei minha opinião (pré-fabricada nas primeiras 130 páginas e que lutei em manter durante todo o resto) depois de ler o artigo “Sobre um livro intitulado Lolita”, do próprio autor, que segue logo após a última página do romance. Apesar de todos os desgostos da minha edição medíocre, gostei tanto desse adendo que até me esqueço dos elementos editorias que me faltam no livro.

Foi a partir desse pequeno artigo que percebi que li o livro todo baseada em preconceitos e em morais da sociedade que custei em quebrar, ou ao menos buscar compreender. Justo eu, que me acho tão cabeça aberta para, no mínimo, ver e saber respeitar as diferenças que encontro por aí. Não quero dizer que a partir dessas últimas 7 páginas virei fã e adepta à pedofilia. Céus, não! O que quero dizer é que já entrei no livro com um pé atrás. E ainda julguei o autor como se ele fosse o próprio Humbert, nosso aceitavelmente louco personagem principal. Quando finalmente consegui sair dessa perspectiva para uma mais ampla, na qual realmente poderia analisar a história, a escrita e os trejeitos do autor, só então pude apreciar a paisagem.

Faço esse comentário como uma sugestão para o próximo leitor que se encontrar aqui buscando indicações sobre o livro. Abra a cabeça e se entregue ao livro. Dito isso, posso então esclarecer um pouco mais sobre a história.

“Quero expor uma ideia. Entre os limites de idade de nove e catorze anos, virgens há que revelam a certos viajores enfeitiçados, bastante mais velhos do que elas, sua verdadeira natureza – que não é humana, mas nínfica (isto é, diabólica). A essas criaturas singulares proponho dar o nome de ‘ninfetas’.” (NABOKOV, V. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003, p. 18)

Humbert Humbert é nosso narrador e personagem principal. Seu grande romance, tão bem escrito em dramáticas palavras, tem o objetivo de servir como manuscrito para seu julgamento, pois fora escrito quando H. H. já se encontrava na prisão. Seu charme europeu tão bem evidenciado em suas próprias palavras perde o encanto conforme vemos a construção de um pedófilo que luta consigo mesmo nas leis morais que impedem seu desejo a cada “ninfeta” que vê pelas ruas. Mais uma, apenas uma, ganhou seu coração, mente e obsessão: Lolita, um apelido curioso dado à Dolores Haze, uma graciosa menina de 12 anos. Quando, por sucessivos acasos do destino, ele finalmente se vê sozinho com ela, dita-se um contrato: ‘serei seu pai e você, minha querida Lô, será minha filha e minha amante’. E assim, nesse jogo de asco e loucura, nos encontramos envoltos neste romance clássico da década de 50.

“Há boas almas que considerarão Lolita irrelevante porque não lhes ensina nada. Não escrevo nem leio obras de ficção com fins didáticos, e, a despeito da afirmação de John Ray, Lolita não traz nenhuma moral a reboque. Para mim, um romance só exisste na medidade em que me proporciona o que chamarei grosso modo de volúpia estética, isto é, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) constitui a norma. Não há muitos desses livros.” (NABOKOV, V. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003, p. 317)

Nabokov sugere que este livro deveria ter sido escrito e lido em seu idioma natural, sua “rica, fluída e infinitamente dócil língua russa“, a partir da qual ele poderia melhorar ainda mais, como um ilusionista na sua mais bela apresentação. Eu tenho que dizer, caro Nabokov, que te acho um lunático que escreve muito bem. E para provar, mesmo apesar de todo o sentimento de repulsa que senti com o livro, o marquei com diversos side-it e o recomento como uma boa leitura.

# 2013: 31º

Título:  Lolita
Autor: Vladimir Nabokov
Editora:  O Globo
Páginas: 319

Skoob: nota 4/5

Com carinho,

A.

Uma resposta to “Lolita (V. Nabokov)”

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