Um conto de até mais

17 maio

[217-365D] Para um conto

Eu queria escrever o dia todo. Completar todas essas páginas que faltam do caderno e fechá-lo deixando as marcas do que me entristece na estante, juntando a poeira necessária que faz o mundo girar.

Estou presa em redes invisíveis que não sei de onde vem. Ou como me livrar delas. Ou essas são apenas metáforas que foram colocadas em minha cabeça pela Collins descrevendo a dor da Katniss em permanecer. Viva, morta, livre, presa, completa ou em pedaços. Viver ou sobreviver? Não, eu disse permanecer. Até o fim, só trilhar esse caminho reto até o final. Está vendo a linha do horizonte? Vá além. Talvez encontre uma flor amarela que a faça sorrir com o sol, ou pise em uma formiga por acidente quando todos os seus pensamentos culminam na razão da existência da paz onde todos vivem livres e em perfeita harmonia. Talvez nada disso aconteça e seu único consolo seja o ritmo dos seus pés combinando com as batidas do seu coração.

E quando e se por acaso sair da trilha, seus pés lhe levarão de volta para casa. Seu quarto, sua cama e todo o seu mundo estará a sua espera. E aquela única faixa de sol que cobre os pés da sua cama lhe trará conforto, repousando em sua pele como um cobertor. O corpo esquentará enquanto os pensamentos criarão asas, personalidade e brilho. Brincarão de fada e traçarão os mais belos planos envoltos de esperança e entusiasmo. Envolto de cores tais quais existem só em seu próprio mundo.

Acho melhor voltar. Se já criei um mundo de fadas na minha cabeça, já me dispersei o bastante para conseguir continuar com o dia. Eu só quero chegar logo em casa.

Fecho o caderno e me levanto. Acho que meus pés sabem melhor das minhas vontades do que minha cabeça tão cheia de correntes. Eles conhecem o lugar seguro. Só não previram o que iriam encontrar pelo caminho.

Um banco demarca o começo do quintal da pousada. Metade envolto nas sombras frias da mata e a outra metade irradia a luz do sol e o calor, que prefiro associar a ele do que à maior estrela do nosso universo.

O que ele está fazendo ali eu não sei, mas não resta dúvida de que está à minha espera. Passei por ele no café da manhã e já tinha planejado encerrar nossos olhares com um último abraço no final da tarde, apenas. Ou até antes, nossas famílias já estavam preparando as coisas para viajarmos. Até lá eu iria remoer todos meus desejos, palavras e sensações até a noite passada. Porque só a noite de ontem, só o que de fato aconteceu eu ia deixar vivo. O resto, desde as lágrimas da despedida às palavras e discursos que serpenteiam minha mente que insiste em imaginar finais Disney, esses eu já começara o processo de trituração. Ia ficar apenas com as cinzas que permeiam e decoram o que ocorrera. E ponto.

Mas sua aparição interrompe o processo. Em uma situação dessas, talvez seja difícil reiniciá-lo mais tarde. Com os braços encostados no joelho, ele escuta as folhas se partindo sob meus pés e vira a cabeça. “Oi… Pensei que seria melhor esperar do que interromper seu momento de criação.” Sua cabeça aponta a câmera pendente na mão. Menti que ia tirar “fotos lá fora” para ninguém me acompanhar ou achar estranho uma menina enfiada na mata no meio da manhã. Mas tão logo entrei aqui esqueci da sua presença, peso e utilidade.

Pareço um animal assustado e ferido, parada assim no meio do nada. Meu corpo congela com a onda de nervosismo que o perpassa quando sua voz me atinge. Câmera desligada em uma mão, caderno e caneta na outra e um pé a meio caminho do chão. A cabeça grita para permanecer no mesmo lugar, mas meu corpo cede ao momento. Acho que preciso falar algo. “Obrigada.” Minha voz sai como um sussurro. Tenho que fazer melhor do que isso se quiser manter uma conversa. Essa é a minha chance, minha única chance de manter a sanidade pelos próximos dias, semanas, meses. Tenho que ser esperta para agarrá-la, então meus sábios pés me levam ao banco, o lado frio das sombras que me espera. “É mais fácil mesmo me concentrar quando estou sozinha. Não funciono muito bem sob pressão ou observação”. Torço meu rosto em sua direção no que deveria ser um sorriso. Sem sucesso.

Seu corpo gentil se volta para mim. Como eu queria que ele não fosse assim, que ele permanecesse rígido e ávido por um toque, assim como me sinto, um toque que ficasse apenas no pensamento me corroendo para sempre no abstrato do arrependimento. Deve ser por isso que sempre escolho os caras errados, não sei exatamente como lidar com gentileza. Sei ser gentil em corpos e mentes frias e sei ser fria com pessoas calorosas e gentis. Essa é a descrição exata de toda a minha personalidade previsível. Não me espanto por estar sozinha afinal.

Seu olhar encara o meu e ambos sabemos que deveríamos nos falar, pelo menos, antes da partida. Qualquer coisa fútil que sugerisse um “até logo, seu time vai perder ok?” Só que eu já lidei com isso antes e tracei um belo plano de fuga que facilmente pularia essa parte. Penso se ele fez algo parecido ou se pensou que só existia uma opção. Ele pode pensar que está sendo gentil e educado vindo até aqui para isso. Eu chamo de louco qualquer um que se coloque deliberadamente em situações como essas, porque claramente ele veio me dizer algo além de que meu time é uma droga. Mas dizem que os loucos, os corajosos e os vencedores jogam sempre no mesmo time. Talvez então seja este um jogo que eu já tenha me acostumado a perder, porque suas palavras seguintes confirmam minhas expectativas.

“Quando você me disse que nossos olhos se caçavam eu não entendi, pensei que você estava brava e pelo seu tom de voz você ia me bater”. Uma risada leve o deixa ainda mais bonito, soando com uma maturidade que contrasta com seu jeito moleque de se vestir.

“Eu não estava brava, eu estava frustrada.” Um ligeiro sorriso é arrancado dos meus lábios enquanto meu corpo afunda em uma respiração tão espontânea que vejo as nuvens se assustarem e chamarem o vento para soprá-las pra longe.

“Frustrada por quê?” E o vento obedece, trazendo o frio da mata para meu corpo que arrepia não devido a baixa temperatura, mas por causa da certeza das palavras que se formam em minha mente e que solto antes de poderem se esconder.

“Porque era verdade. Porque das outras vezes que nos encontramos foi igual, parecia que você me olhava de um jeito diferente e, mesmo sem saber se era verdade ou criação da minha mente carente, eu acreditei e alimentei meus olhos com imagens dessa arena, desse contexto”. As lembranças da esperança dessa viagem passam pela minha cabeça como um filme. Eu imaginei tantas vezes esse encontro que pensei não ser possível acontecer de um jeito já não revisto previamente. “E quando cheguei foi como se declarasse aberta a temporada. Meus olhos atiravam e sempre acertavam o alvo, que eram os seus. E eu não sei porque fiz isso, mas você despertou alguma coisa em mim que não consigo fazer voltar a dormir, sumir ou… sei lá o quê”.

O silêncio ecoa minhas palavras e por apreensão meus olhos atiram novamente, e erram. Seu corpo gentil ainda me encara, mas seus olhos guiam seu dedo que traça a linha tênue entre a sombra e a luz, meu limite de espaço, minha barreira de pensamentos e sentimentos tão bem traçada na minha frente. Sorrio com a representação tão concreta do destino que fala através de simples gestos mais uma vez.

Ele observa meu sorriso incrédulo e faz ele próprio uma tentativa de tiro, certeira. Meu jogo esquenta, meu competidor que estava tão entediantemente longe começa a dar as caras para a batalha. Pena que perdi a vontade de jogar. Quando falo, o peso da verdade me enche os olhos de lágrimas. “Desculpa. Eu gosto do jogo, do flerte, dessa coisa que nos faz pensar e repensar todos os caminhos que pegamos.” Pego sua mão na tentativa de me acalmar. Eu desejei tanto tempo poder tocá-lo livremente assim, sem jogadas planejadas. “Eu gosto da sua voz, do jeito como se livra da vergonha se enaltecendo em brincadeiras, da maneira que guarda as coisas displicentemente no bolso, de quando sua mão procura a minha quando penso que estou sozinha e de como seu olhar penetra meu corpo me puxando para perto. Eu… desculpa.”

Falei mais do que devia. Eu dei indícios de sentimento em voz alta! Eu tenho sentimentos por ele. Céus, isso significa que todos aquelas emoções eram verdadeiras e reais e não fruto de uma mente criativa e sem lembranças. Significa que toda aquela dor e tristeza era porque eu não poderia mais ter e perseguir esse mesmo olhar que está mudo, gritando no silêncio por menos. Ele não veio até aqui para isso. Ele veio falar tchau, conseguir um jeito de ter um backup para levar adiante, ele sabe tão bem quanto eu que não tem como ficarmos juntos, somos de cidades, mundos diferentes! Onde eu estava com a cabeça? Por isso a frieza, sua besta, por situações como essa que aquela frieza toda se justifica. Porque minha gentileza é ser sincera e quando sou sincera mostro meus anseios, fico vulnerável e me torno tola.

Uma onda de raiva percorre meu corpo, seguro as lágrimas que querem cair e me levanto movida pela urgência em sair dali, em correr para meu quarto e afundar a cabeça no travesseiro até não ter mais força para pensar nisso, nele e em nós. Até me chamarem para entrar no carro e finalmente voltar pra casa.

“Ei, onde você vai?” Ele se levanta tão rápido que me pergunto se é só o reflexo do meu desespero ou se ele está realmente preocupado com o término do momento. “Você não tem que pedir desculpa por nada… Eu também te beijei, não foi?” Lentamente ele se aproximou, com seu rosto terno me olhando como se qualquer coisa que fizesse iria me fazer correr. E, bem, eu quase o fiz. “Sabe, o beijo é realmente uma ação que precisa de duas pessoas.” Meu corpo respondeu antes mesmo que tivesse chance de repensar o assunto. Quando suas mãos tocaram meus braços toda aquela raiva evaporou e um leve sorriso debochou de suas palavras por mim. Como se sentisse a segurança em se aproximar, ele me abraçou. De repente senti que precisava ser forte, uma força que aparentasse tão poderosa que até mesmo me convencesse capaz de me livrar desses pensamentos no futuro. Porque esquecer esse momento, esquecer ele, seria uma missão quase impossível. Estar com ele, tão perto, parecia tão certo que doía. Na curva do seu trapézio sussurrei seu nome e o ouvi ecoar dentro de mim, relaxando as tensões de um adeus que finalmente tomava forma com ele apertando ainda mais o abraço, fechando cada espaço entre nós com a urgência de uma última chance.

Me afastei o suficiente para lhe dar um leve beijo enquanto minha mente esclarecia. Eu senti alívio.  Meu corpo relaxou, senti meus ombros livres de um peso que nem sequer sabia da existência. Quer dizer, eu sabia porque várias vezes me peguei com falta ar, como se algo me apertasse, mas não pensei que todo esse peso ultrapassasse o limite do meu peito. Por mais estranho que pareça, alívio parecia o sentimento certo a se sentir naquele momento. Eu havia interpretado errado, a linha demarcada entre a luz sombra e luz não necessariamente representava o bom e o ruim, alegria e tristeza ou algo intransponível. Ela simplesmente significava o fim.

Nossos lábios se desencostaram e mantive os olhos fechados até recobrar a respiração. Agradeci mentalmente ao vento por me acariciar e me apontar o caminho seguinte, indicado-o com a passagem das folhas secas sob nossos pés. Abri os olhos para encontrar meu alvo tão cravejado e fechei-os novamente para receber um último beijo na testa, tão terno quanto a mira se formava em minha mente, uma última flecha cheia de nostalgia já pronta no arco. Levantei a cabeça para atirar a última flecha e quando finalmente foquei o alvo, lá estava ela, certeira junto com um sorriso.

“Boa viagem.” Simples e verdadeiro, não havia nada além disso que queria desejar, almejar ou falar. Me surpreendi com uma força muito maior do que pensei ter. O alívio de ter colocado um fim na história me deu coragem para criar outra. Que repetisse os personagens ou não, que mantivesse o contexto ou aprofundasse ainda mais a aventura, não sei. Por ora, meu final feliz estava escrito e eu iria fechar o livro sorrindo. Dei alguns passos na direção da casa, ainda olhando para minha última flecha, orgulhosa de ganhar o jogo. Se é que posso chamar isso de vitória.

“Boa viagem.” Ele repetiu, enquanto me assistia seguir levemente o caminho de volta. Mesmo quando virei deixando o sol me aquecer das sombra ainda sentia seus olhos me perseguindo. Então, em um lapso de desespero, deixei os movimentos automáticos do meu corpo posicionarem a câmera que ainda pendia em minha mão,voltei meu corpo apenas tempo suficiente para arrumar o foco.

Não me permiti olhar a foto até chegar em casa, saciada ainda com a leveza da despedida. E finalmente quando a vi, um sorriso competidor acometeu meu rosto. Lá estava sua última flecha, seus olhos não mentiam o tiro certeiro, pois mesmo aprisionado na eternidade da foto, eu podia dizer que ele me olhava fixamente com um sorriso desafiador. Ele não desistiu do jogo.

Uma resposta to “Um conto de até mais”

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  1. Capítulo 2 | Um journal de sorrisos - 3 de junho de 2013

    […] eu estou meio que escrevendo uma história. Lembram desse conto? Eu tenho uma continuação que apresento aqui no “Capítulo 2″ e ainda tenho […]

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