Mãos de cavalo (D. Galera)

8 maio

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“O tema principal do livro é a identidade, a obsessão que temos por defini-la e a inutilidade geral desse esforço. Até que ponto é possível decidir como queremos ser e que imagem os outros terão de nós? Talvez definir isso racionalmente seja tão inviável quanto decidir se queremos ou não amar uma determinada pessoa.” (Fonte: Companhia das Letras)

Conheci “Mãos de Cavalo” através da estante do Filipe no Skoob. Não tive receio em pedir emprestado o livro e então, em uma noite calorosa de encontro de violões, ele chegou às minhas mãos. Tão fino, páginas amarelas, poucos diálogos e uma capa maravilhosa. À princípio pensei que fosse algo que remetesse à esses belos animais que tanto estimo, mas ao ler a sinopse vi que talvez não. Quando li, vi que não tinha simplesmente nada a ver. Mãos de Cavalo é só o apelido de infância do protagonista, que o recebe por ter braços e pernas compridos demais (nunca pensei em chamar alguém assim.. “ô, mãos, cola aí!”).

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O autor

Daniel Galera me surpreendeu. Primeiro com seus capítulos curtos e densos, que, ao mesmo tempo, eram compostos de um único parágrafo e continham uma leitura incrivelmente leve e dinâmica. Achei isso uma façanha para poucos autores e baseada nisso segui o livro me envolvendo cada vez mais no interior do personagem. No site da Companhia das Letras encontrei trechos de uma entrevista com o autor, onde ele discorre sobre o livro dizendo que este apresenta “uma síntese de diversas histórias que guardei na cabeça durante anos, mas que vieram se transformando e atualizando ao longo do tempo. Algumas cenas e personagens têm origem em coisas que imaginava desde os dez ou doze anos de idade, muito antes de sonhar em escrever”. (Fonte: Companhia das Letras)

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A história

Hermano é retratado em três fases da vida: através de um garoto de dez anos que desafia as leis maternas de segurança e se lança em aventuras heroicas com sua bicicleta à uma velocidade que pede por um tombo digno; através de um adolescente calado, que não bebe, não fuma e nem sequer se importa com as meninas que desejam seu corpo esculpido pelas horas de exercício diário; e, por fim, através de um exímio cirurgião plástico que enfrenta problemas no seu casamento e na sua vida, com o extremo tédio que aponta em vidas infelizes, como a dele.

A quarta capa do livro diz tratar-se de uma “trama delicada sobre perda e culpa na formação de uma identidade”, não concordo plenamente. Sim, ele passa por eventos traumáticos que mudam sua vida rumo à uma introspecção ainda maior (ele já era uma pessoa quieta), deixando as marcas do passado se transformarem em feridas de culpa que não cicatrizam com o passar do tempo e, pior, criam outras. E são estas feridas as responsáveis por sua fuga constante de uma rotina opressora à uma mente agitada por fantasmas do passado. Mas não acho que o livro trate apenas de culpa, acho que o livro vai muito além.

Sou também uma pessoa saudosista, já perdi dias revivendo momentos do passado que não mais voltarão. E essa narrativa trata-se da mesma coisa. Através das suas visões do passado Hermano consegue não só compreender o presente mas entender qual deverá ser seu próximo passo para que sua vida mude. Aí sim concordo com a sinopse, pois acredito que ele busque “no futuro, conviver com uma memória em que se confundem heroísmo e covardia” – covardia deixa-se para o passado, heroísmo para o passado recente que ele cria nas ações do presente.

Eu me identifiquei com Hermano, já conheci pessoas com características parecidas. Então considerei a leitura um prazer que afagou lá dentro, me fez pensar em minha infância e adolescência não só com saudade, mas com prazer. Com ela aprendi, mais uma vez, o lugar certo para minha nostalgia, aprendi mais uma vez que passado não volta, não se refaz e nem te abandona; aprendi mais uma vez que presente, passado e futuro são a mesma coisa, carregamos os dias que passam na mochila das costas, basta lembrarmos de organizar essa bagagem todo dia de tal modo que ela fique leve como uma bolsa simples e pequena.

Espero que vocês leiam e também gostem. :)

# 2013: 23º

Título: Mãos de Cavalo
Autor: Daniel Galera (Site / Twitter)
Editora:  Companhia das Letras
Páginas: 189

Skoob: nota 4/5

Com carinho,

A.

3 Respostas to “Mãos de cavalo (D. Galera)”

  1. Filipe Baldin 13 de maio de 2013 às 12:18 pm #

    Oii Ana! fiquei muito feliz que tenha gostado do livro. inicialmente quando me perguntou sobre ele já pensei que não era muito como você esperava, mesmo assim não deixa de ser um bom livro. É realmente de fácil leitura e muito interessante. algumas passagens do livro são tratadas de tal forma que a impressão que dá é de um livro autobiográfico, mesmo que disfarçado com um personagem chamado Herculano ao invés de Daniel.
    Mas livro bom é assim mesmo, passa a experiencia de forma tão rica que nos faz confundir entre relato ou criação.
    Gosto muito do seu blog, que é muito lindo por sinal, e de suas experiencias literárias que você une em uma resenha junto a um ensaio fotográfico do livro. Muito legal isso!
    Um beijo e uma ótima semana. :)

    • anapalombo 14 de maio de 2013 às 12:51 am #

      Que bom que gostou daqui! Eu adorei o livro, fez uma parte de mim se sentir “em casa”. Muito obrigada. Jajá passo aí para devolvê-lo! :)

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