Não quero calar a entrelinha

9 abr

(5 on 5)

– Com licença – disse ela batendo suavemente no batente da porta já aberta da sala de aula. Todos, inclusive o Sr. Professor, olharam para a nova monitora, carne nova no pedaço – Aqui estão as cópias que pediu.

Aaaah! Olhem gente, que belo exemplo do sexo feminino. Além de linda, eficiente.

Percebem? O julgamento está nas entrelinhas. Não tinha como ela deixar essa passar, não era da sua natureza.

– Se gosta do que faço, por que não me elogia pelo meu trabalho ao invés da minha beleza? Engraçado… Estes são textos sobre a discussão de igualdade de gênero, não acha que o que você disse é um exemplo claro de um comportamento meio… errado? – Ela falou sorrindo, mas a ironia exalava dos seus poros. Os alunos se empertigaram um tiquinho.

– Ahh mas você sabe que estou brincando com você. Não vem com essa, só porque ela fez Ciências Sociais quer discutir tudo a todo momento. Toda mimimi de defender pobre, negro, índio e o caralho a quatro.

… Exato. Continua. Me chama de socialista, de hippie, de feminista. Fala que eu defendo os índios, os “pretos”, os pobres, os gays, os bandidos e filhotes abandonados na rua. Fala que eu tenho direito de ter, de ser, de falar, de andar, de comprar, de votar e usar que roupa eu bem entender. Fala pra eles que eu posso ter a profissão que eu quiser, agir do modo que tiver vontade e responder a comentários abusivos no mesmo nível. Cante essa canção de igualdade e de liberdade que quando chegar no último refrão, prometo que aplaudo de pé. 

Xiiii… Agora virou a nervosinha!

Agora sou a nervosa que se defende de comentários babacas. – O sorriso ainda era meigamente irônico, como ela conseguia? – O que aconteceu com a eficiente e a bonita? Sabe, querido Professor, você devia ensiná-los a não ter várias personalidades e defender seus ideais… Afinal, como já dizia Lenine, nós podemos ser Todas elas Juntas Num Só Ser – O rastro do seu sorriso triunfante só foi apagado pelo baque suave da porta se fechando atrás dela. Céus, que menina inspiradora.

A.

Sobre coragem

10 mar

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É preciso ter coragem para enfrentar o palco, mas é preciso de mais para ser verdadeiro consigo mesmo.

É preciso coragem para olhar, sorrir e convidar o cara da mesa ao lado para explicar o porquê de não ter escolhido o bolo de cenoura, se ele obviamente era o mais bonito da vitrine. Para ligar para aquele conhecido no meio da noite e perguntar se ele veste qualquer cor que combine com o seu batom, porque isso seria um sinal claro de que ambos deveriam deixar seus rolês para se verem em qualquer canto escuro da cidade. Para marchar decidida e parar descaradamente na frente da única pessoa que realmente parece não se importar com o que usar na balada e dizer “eu queria estar com o seu moletom, parece extremamente confortável”.

É preciso de mais coragem para dizer que não me importo, que não te suporto, que não te espero, não te quero e que adoeço porque não te esqueço. Coragem para assumir que te stalkeio um pouco, em doses espaçadas durante o dia todo; que vejo suas fotos e suspiro com as lembranças do seu toque, do seu beijo e do seu olhar; que imagino onde está, o que faz e o que eu faria se, sem querer, esbarrasse em você no meio do supermercado. É preciso coragem para frear todos os impulsos e as justificativas que invento pra te ligar, te mandar mensagem ou simplesmente ver se você está online.

Mas é preciso de coragem ainda maior para ver que tudo isso não existe. Coragem para assumir que me apoio em você para fugir de mim. Olho nos seus olhos porque não consigo me olhar no espelho. Busco seu carinho para não ter tempo de olhar pro lado e ver que estou sozinha. Busco seu sorriso e suas histórias por medo de perceber que na minha vida faltam tais coisas por falta de prática, de vontade ou de sonho.

É preciso coragem para se aproximar, para me afastar e para sentir; coragem para me perder e ainda mais coragem para me encontrar.

Quanta coragem, pequenina.

A.

Fairy Tail

29 dez

[272-365D] Fairy Tail

Me apaixono todo dia. Por você, por ele, por nós, por eles. Me apaixono por aquele cara que pegou na minha mão despretensiosamente quando estávamos imersos no mundo de pó colorido; por aquele garoto que conversou sorrindo comigo mesmo sob o olhar de “não converse com estranhos” de sua mãe; por aquela pessoa que, no meio do treino, sem fôlego, consegue força para sorrir e me incentivar com caretas; por aquela foto tua em que sorri aquele sorriso que faz meu coração derreter; por aquele grupo de amigos conversando como se o tempo não tivesse passado, como se nada tivesse mudado desde que se formaram, 6 anos atrás; por aquela lembrança que tanto gosto, quando o mundo corria inédito pela janela e você só tinha olhos para mim… Me apaixono todo dia por você. Um você que posso ou não conhecer, um você que crio, invento, fantasio. Um personagem que serve de combustível para as mais incríveis aventuras que constroem seus cenários no pequenino espaço entre minha cabeça e o travesseiro.

E eu sofro. Pela ilusão, pela espera, pela dor, pela saudade, pela mentira. Sabem, minhas fantasias costumam voar tão longe quanto querem, pois esse sempre foi meu lema: criá-las livres. “Vá, construa, viva”, dizia para cada uma delas. Mas não esperava que se distanciassem tanto da realidade, ou sequer que esse descompasso tivesse consequências. Elas vão e constroem mundos fantásticos, tão vivos e mágicos no cenário perfeito do sonho. Mas o mundo de fantasia desmorona fácil, basta um descompasso. Quando você não responde a mensagem, quando me ignora, quando o rolê toma outro rumo ou quando a noite não a noite mais especial. Eu sei, parece pouco para abalar um “mundo” inteiro… é então que a realidade te acerta desprevenido: nem tudo é do jeito que a gente quer. A batalha começa, a fantasia quer continuar, quer que tudo seja perfeito, enquanto a realidade avança, conquistando território.

No meio disso tudo, quem poderá te salvar? Não, não o Chapolim Colorado. Surge a tal da Esperança, a expectativa de que, mesmo no meio da bosta, tudo vai dar certo. Ele só estava atrasado, o celular dele quebrou no meio da noite, aquela menina era só uma amiga mesmo, tipo irmã. Eu sei que todos pensam que essa tal heroína é a melhor coisa que acontece em momentos como esse, mas não, é a pior. Ela se esconde no meio da fortaleza mantendo toda a estrutura viva por mais tempo, e mesmo quando atacam os portões, liberam as feras e avacalham meu exército fantasioso, ainda assim a tal da esperança pode não ser atingida. Fraca, quisera eu que ela viesse logo pra batalha, que encarasse o mundo, a realidade e suas consequências. Quisera eu que ela fosse a que tivesse mais coragem, a que iniciasse a batalha, lutando ferozmente até ser a última a cair. Quem sabe assim minhas fantasias aprendessem a manter o pé no chão? Quem sabe assim, dá próxima vez que tudo desmoronar, o tombo não seja tão alto. Pois agora, enquanto você se mantém aí escondida, minha cara, assistimos cada pedaço do sonho ruir. Como em um filme ruim, eu só queria passar tudo pra frente, abandonar essa fantasia, começar outra… Mas não posso enquanto você estiver aí, viva e querendo, desejando que, mesmo minimamente, alguma parte desse sonho dê certo.

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